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A Infncia no Brasil pelos olhos de Monteiro Lobato.
( por Ivan Russeff )


1. E sempre foi assim...
As notcias mais recentes sobre a intolerncia com que o homem
contemporneo tem agido nas suas relaes sociais no chegam a constituir
nenhuma novidade. Apenas confirmam a resistncia, em nossa cultura de
aventureiros e conquistadores, de um curioso __ mas nem por isso inofensivo__
comportamento egocntrico, resultante da presuno de que o outro no conta:
quando muito, pode contar desde que lhe seja semelhante ou subalterno.
No se h de ver nisso qualquer perversidade intrnseca ao ser humano;
afinal, ponderando com Dona Benta em seus concorridos seres l no Stio do
Picapau Amarelo, o homem, para sobreviver, sempre fez das guerras o principal
acontecimento de sua vida, vindo a afirmar esse inevitvel modo de proceder at
mesmo nas suas relaes comunitrias. Submetidos  dinmica da auto-preservao,
os indivduos concorrem entre si para legitimar os seus respectivos
interesses, sendo inevitvel que entre os contendores haja a convico ntima de
que so portadores de representaes do mundo comprometidas com o to
decantado bem comum e, por isso, devem se impor em detrimento dos demais.
Contudo, apesar de tamanha "naturalidade" a pautar as relaes polticas
entre os homens, o esforo para a afirmao de uma determinada maneira de
representar a realidade nada tem de cordial, constituindo-se numa verdadeira luta
pelo poder e dominao, em que, na filosofia prtica de Emlia, " um no quer
saber da razo do outro." E o que  primeira vista pode parecer a manifestao
individual do egosmo, revela-se na verdade como a expresso coletiva de
interesses forjados historicamente pelo grupo social a que aqueles indivduos
pertencem e de onde contemplam a vida.
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Este solipsismo no passou despercebido aos olhos de Monteiro Lobato,
sendo um tema recorrente ao longo de sua obra, em especial naquela que dedicou
s crianas. Mais um aspecto a lhe reafirmar a atualidade, como se tem repetido
praticamente desde a sua morte? Parece que a evidncia desse fato tira-o da ordem
do dia; de qualquer forma, o mais acertado  explorar a pertinncia do pensamento
lobatiano na leitura renovada daqueles livros que fizeram a fortuna mgica (e
crtica) de vrias geraes, e por onde vibra o repdio democrtico  intolerncia e
ao egosmo. Nem Emlia era perdoada por suas recadas autoritrias, merecendo
vez ou outra um "chega-pr-l" da turminha do Stio; mas sobrava-lhe topete para
se redimir, at porque, o extremo de seu egosmo eram birras de boneca mimada
(que o diga o pobre do Visconde de Sabugosa!) e intolerncia ela demonstrava,
mesmo, era com tudo o que pudesse flagelar a humanidade. A tal ponto isso a
angustiava, que chegou a diminuir o tamanho dos homens para acabar com a II
Guerra Mundial, como se pode ver n'A Chave do Tamanho:
Ou acabo com a guerra e com esses dios
que estragam a vida, ou acabo com a espcie humana. Comigo  ali na batata!( 1)
No so raras as demonstraes dessas "arrogncias batatais", para a
intranquilidade do Stio do Picapau Amarelo e horror de Dona Benta. Mas isso no
estava muito distante do que pensava Lobato, o seu altera-humano e "aparelho
submisso de suas aventuras, para quem a complexidade crescente da chamada vida
moderna que, alis, sempre o seduziu-vinha tornando cada vez mais extravagantes
as manifestaes de egoismo e intolerncia, ganhando os contornos largos do
etnocentrismo. E na polifonia da Saga do Picapau Amarelo, a voz judiciosa de
Dona Benta vai se destacar nos seres, verdadeiras assemblias famliares em que o
exerccio democrtico se dava no calor dos debates em torno de pontos-de-vista
diferentes e at opostos. A paz domstica no se dava ali, com certeza,  custa da
uniformidade das idias, o que levou o rei Carol, da Romnia, a tomar Dona Benta
e Tia Nastcia como as mandatrias da mais democrtica e liberal das Repblicas
modernas. No havendo qualquer desconforto com o que era estranho ou diferente,
contrariavam, na prtica dessa utopia, a marcha do vasto mundo, cuja civilizao,
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no dizer de Dona Benta, sendo filha do ferro e do fogo, anulava tudo o que no se
sujeitasse  uniformidade.
"E sempre foi assim a vida do homem sobre a terra", ouviria Pedrinho de
sua av -a mais av das avs, segundo ele-, arrematando um dos seres em que se
disps a contar a histria do mundo para as crianas do Stio. "O sarraceno pregava
o Coro com a espada em punho. O cristo pregava a Bblia com o arcabuz
engatilhado. O diabo decida entre ambos... e os tenha a todos no maior dos seus
caldeires." (2)
Ora, dentro dos parmetros to difusos da intolerncia humana, inclui-se
uma gama variadssima de embates e confrontos, muitos dos quais no chegam
sequer a ultrapassar as fronteiras do grupo que os fomentou. Distendidos entre
preconceitos polticos, religiosos, lingsticos, estticos, sexuais, alm do to
surrado quanto resistente preconceito de cor, esses conflitos mostram-se
comumente entricheirados sob as bandeiras mais evidenciveis, mas, alguns to
discretos e sutis que simulam uma presumida concrdia. Em meio a esses ltimos,
as relaes entre os contendores caracterizam-se, via de regra, por grandes esforos
de persuaso e, simblica ou no, a violncia da decorrente traz conseqncias que
dificilmente poderiam ser tomadas como saudveis.
Seria exagerado incluir entre tais desencontros a intolerante relao que
Lobato vivia denunciando entre adultos e crianas?
Numa comunicao preparada -e no apresentada-para a Comisso
Executiva da Conferncia de Proteo  Infncia, o autor observava que:
Estamos ainda, infelizmente, num perodo em que a criana
em vez de ser considerada como o dia de amanh, no passa de
"nuisance". Animalzinho incmodo, para os pais e professores. Da toda a monstruosa negligncia a seu respeito. (3)
E para que no houvesse dvida, esclarece o sentido dessa negligncia
praticada por "todos os professores de fraco descortino psicolgico", ao
entenderem a criana "como um homem em miniatura e pede( m) que se d a ela o
mesmo alimento mental e moral que se d ao homem, com reduo apenas de dose.
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Critrio dos farmacuticos: para adultos, uma colher de sopa; para crianas, uma
colher de ch."( 4)


2. Arruinando a exceo a favor da regra.
Seria descabido supor a institucionalizao dessa violncia,  certo, mas fica
ingnua a crena na sua eventualidade; ela est presente nas relaes educativas e,
sob os mais variados trejeitos pedaggicos, ajuda a cumprir aquele compromisso
social que as geraes mais velhas tm para com as mais novas: a atualizao
cultural, ou, a "transmisso de uma civilizao, numa presso exercida pelas
geraes adultas sobre as geraes jovens"( 5), segundo Fernando de Azevedo, um
dos poucos a quem Lobato reverenciaria como um mestre da cultura brasileira.
Para alm das relaes domsticas, caracterizadas pela espontaneidade e
informalidade do processo de "aculturao", no  preciso apelar para a memria
ancestral dos ritos de iniciao, nem para a lembrana da educao tradicional e
letrada , a desasnar as crianas que lhes cassem nas mos. Tambm sob o manto
difano da escola dita renovada, ainda se encontra velado o esprito autoritrio e
negligente do dever ser, centrado na repulsa a quase tudo o que possa diferir das
convenes assentadas pela intolerante cultura do adulto. Educar para a mudana 
apenas mais um dos desgastados lemas consagrados pela sociedade que, no fundo,
anseia pela mesmice. Pudssemos ouvir Pedrinho nesta matria e ele diria que no
h "comicho no crebro" que possa resistir a tamanha falta de interesse pelo
desconhecido.
Em meio a esse tensionado relacionamento educativo -j que a presso do
adulto sobre a criana  inevitvel no contexto das responsabilidades sociais-a
funo emancipadora da escola, atuando no limite da tradio e no limiar da
ruptura, apresenta-se como um dos grandes desafios da educao contempornea.
Mesmo porque, ao preferir a cincia contada por sua av, que vem "clarinha como
gua de pote", Pedrinho nos faz concordar com Georges Snyders, para quem
emancipar no significa a desobrigao tica e cultural das geraes mais velhas;
assim, o ensino contribuir com a democracia se, em lugar da iseno indulgente e
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amvel, houver "verdades a conhecer, uma luta a travar, a organizar, ou antes, uma
luta a travar com base nessas mesmas verdades." (6)
Portanto, dada a sua delicadssima insero social que a obriga a reverenciar
o saber j acumulado e a especular sobre uma possvel cultura por fazer, sobram
razes para que a escola seja alvo de suspeitas. A propsito, Lobato, que sempre
afirmava nada entender de matria pedaggica, parodiava Nietzsche para dizer que
a educao para ele -e a supe-se a educao formal-se resumia em arruinar a
exceo a favor da regra!


3. Um "narizinho" escolar.
O nosso rebelde Lobato, contudo, no poupou esforos para imprimir
milhares de livros de leitura paradidtica, chegando a ver mais de 100.000 de seus
"narizinhos arrebitados" nas mos -e nas mentes-das crianas brasileiras. Este
livrinho se constituiria, como anunciava na capa da edio de 1921, no "Segundo
Livro de Leitura para uso nas Escolas Primrias", sendo distribudos
experimentalmente cerca de 30.000 exemplares a todos os Grupos Escolares do
Estado de So Paulo.
Era a realizao de um velho sonho do autor, confidenciado muitos anos
antes, em 1916, ao amigo Rangel:
Ando com vrias idias. Uma: vestir  nacional as velhas
fbulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e verso
mexendo nas moralidades. Coisa para crianas.
Arrematando logo abaixo:


 de tal pobreza e to besta a nossa literatura infantil, que
nada acho para a iniciao de meus filhos. Mais tarde s
poderei dar-lhes o "Corao" de Amicis -um livro tendente
a formar italianinhos... (7)
Ao contemplar a criana, portanto, o projeto lobatiano na literatura infantil
demarcava o mbito de sua interveno: as moralidades; e afirmava como objetivo
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maior a iniciao na vida, sendo que para a sua implementao, deveria contar com
a clientela cativa da escola.
Mas, se por um lado, o pai de Emlia foi muito alm do intento de
nacionalizar Esopo e La Fontaine, com o objetivo pragmtico de formar
brasileirinhos (-e a Saga do Picapau Amarelo a est para nos confirmar esse
amadurecimento literrio-), de outro lado, vai se manter inaltervel, ao longo de sua
jornada de ficcionista ou de editor de livros, o propsito sempre reiterado de meter
idias no bestunto da crianada; e para isso, no dispensou a to criticada educao
formal. Alis, numa carta ao mesmo Rangel, datada de 1921, pede ao amigo que
avalie o interesse que a edio escolar das reinaes de Narizinho pudesse
despertar na crianada mineira, mostrando com isso o reconhecimento da
importncia da escola, desde,  claro, que interessasse ao aluno:
Mando-te o Narizinho escolar. Quero tua impresso de
professor acostumado a lidar com crianas. Experimente nalgumas, a ver se se interessam. S procuro isso:
interesse s crianas. (8)
No se vai aqui negar o tino empresarial de Lobato, a farejar um bom
negcio nesse interesse das crianas por livros que se pudessem vender "s
pencas", como gostava de dizer. Mas, a par disso, o que se pode depreender  o
seu desejo de intervir numa literatura sistematicamente menosprezada pelos seus
contemporneos, valorizando aqueles virtuais leitores mirins a partir da sondagem
de seus interesses.
Como entender, ento, esse magistrio informal de Lobato a inculcar
"emilices" no bestunto dos alunos das escolas primrias de todo o pas? Uma
adeso latente, mas muito bem disfarada,  intolerncia do adulto impositor, para
quem a criana no passaria de "animalzinho incmodo"? Ou um desvio 
indulgncia amvel (" S procuro isso: interesse s crianas."), a ministrar
colheradas de ch a homnculos destitudos de identidade prpria, como
recomendavam os farmacuticos de planto?


2. Nem pedagogo, nem pedfilo.
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Antes de qualquer esforo para eliminar mais esse dilema provocado pelas
idias e aes de Lobato, conviria reafirmar o gosto malicioso com que burlava a
vigilncia dos classificadores, ansiosos por lhe fixarem a personalidade literria ou
poltica numa palavra definidora, "espcie de alfinete com que se espetam as
borboletas no mostrurio dos entomologistas"( 9), no dizer de Galeo Coutinho, um
de seus estudiosos.
Livre do alfinete, Lobato se multiplica, apresentando uma imagem,
convenhamos, desconfortavelmente difusa entre o intelectual polemista, o
empresrio, o escritor, ou o educador e irredutvel a qualquer de seus termos, no 
raro o malogrado esforo de compreend-lo dissociado do conjunto que o
caracteriza, num desrespeito grosseiro ao que tia Nastcia definiria como o
"felmeno" lobatiano. Assim "alfinetado", torna-se parcial e insubsistente, se no
tiver o concurso complementar -ou mesmo redefinidor-das outras facetas de sua
mltipla personalidade, dada a ntima correspondncia que os sustenta.
E ser no campo supostamente diferenciado da educao que a
complexidade do autor vem se preservando?  evidente que no. Tome-se, como
exemplo, o dilema que ora se prope, a indicar quanto de estrago tem feito o
alfinete dos entomologistas ao espetarem no mostrurio lobatiano esses dois
espcimes vulgares, mas que ainda provocam uma grande comoo: o pedagogo e
o pedfilo. So "lobatinhos" rastaqeras, assduos freqentadores dos livros
didticos e da mdia, constituindo-se, na verdade, no subproduto de uma crtica
pedaggica no to recente. De seus adeptos no se pode dizer que tenham "fraco
descortino psicolgico" e, embora no o tenham em alto grau, assumem aquele ar
de atrevida suficincia do "lobo bobo" do Museu de Emlia( 10) que, j
dispensando o disfarce da peruca da vov, s no invadiu o Stio de Dona Benta
graas  esperteza de Emlia e  fora do Quindim. Interessados numa literatura
infantil de convenincia (e convenincia de adulto), oscilam entre um suspeitssimo
Lobato pedagogo, muito didtico e professoral, e outro, no menos suspeito, s que
pedfilo: loquaz e espirituoso, ele  uma espcie de bom velhinho contador de
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histrias edificantes; um tio Barnab inofensivo e paternal, para quem a criana  a
expresso acabada da virtude e da inocncia.
Os "pedofilistas" no vem na literatura de Lobato seno histrias
carregadas de fantasia e sadio entretenimento:
Ningum no Brasil escreveu para crianas livros com
tanta graa e leveza, ensinando a pequenos e grandes.
No h, em sua vasta literatura, um s palavro, uma
s obscenidade, uma nica torpeza.  um escritor escrupuloso, quanto  moralidade do que escrevia.
Tratou dos temas mais escabrosos com absoluta pureza.
Jamais recorreu  pornografia para despertar o interesse dos leitores.( 11)
Dos pedfilos, no se h de recear muito; esto restritos aos quintais
improdutivos para fora do Stio do Picapau Amarelo. Semelhantes  trepadeira
efmera do melozinho-de-so-caetano, s do em poca certa: quando no se tem
ainda muita intimidade com as peripcias da turma do Stio; e em lugar
determinado: na crtica superficial feita por educadores distrados e biografistas de
circunstncia.
Duas ou trs estocadas da Emlia pem por terra qualquer iluso quanto 
suposta bonomia pedfila de Lobato. Na boca da boneca, a inocncia boboca vira
razo especulativa e prtica: "Se a mentira fizer menos mal do que a verdade, viva
a mentira!"
J o Lobato pedagogo, fruto da imaginao interesseira dos mestres-escolas,
promete
vida mais longa e sempre ressurge na mdia atuando em histrias
"conscientizadoras". Metem-lhe num modelito  La Fontaine e, ei-lo supimpa,
muito compenetradozinho em suas prdicas moralistas e conservadoras, divertindo
e ensinando tanto a adultos quanto a crianas. Mas  sobre essas ltimas a
evidncia de sua inteno inculcadora, fazendo da obra lobatiana o que, para mal
de seus pecados, o prprio autor sempre repudiou: uma literatura para adultos em
miniatura:
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Em conseqncia surgiu toda uma flora de livros mais
ou menos morais e instrutivos, escritos por professores
e impostos por outros professores com influncia na administrao. Tudo timo, tudo perfeito, absolutamente em
concordncia lgica com o conceito de que a criana  um
adulto reduzido em idade e estatura, e com a mesma psicologia.
O
defeito nico desses livros est em que as crianas os
refugam
sistematicamente, como o organismo refuga
sistematicamente o
alimento que a sua natureza repele.( 12)
Semelhando o famigerado urup parasita do primeiro manifesto de Lobato
contra o mito do caboclo brasileiro, esse "lobato didtico" viceja  sombra do
educador, esgotando-lhe a seiva; e o estrago s no  maior porque a obra resiste 
interpretao oportunista.
A resistncia desse "urup", entretanto, mantm-se inabalvel por conta de
sua unnime aceitao, inclusive pela escola, incapaz de enfrent-lo; menos
reflexivo e contestador, ele perde a fora de seduo junto ao leitor pelo tratamento
exclusivamente escolar que recebe. Em contrapartida, empolga os telespectadores
que se rendem  hipnose fcil da imagem.
"Delenda" a TV? Tambm, no! Muito a propsito, observa Srgio Capareli:
At que ponto ainda  Monteiro Lobato o que o vdeo
mostra? Ele perde ou ganha com essas paradoxais
adaptaes em que no  sua obra que est sendo adaptada
para a televiso, e sim, a de outros autores que
a ele se adaptam atravs da televiso? (...) O que
se pode concluir, isso sim,  que Monteiro Lobato
continuou a existir em seus livros, mas foi a TV
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que lhe deu uma dimenso massiva. (...) (13)
Para alm da concluso acima,  preciso tambm sublinhar que a escola no
est obrigada a concorrer com a TV pelo desafio da massificao; com certeza 
outra a inflexo do discurso pedaggico. Porm, h de se convir que a falta de
entusiasmo pela leitura sugerida numa classe, deve-se , em grande parte,  conduta
acadmica e burocrtica com relao ao livro, enclausurando-o na sala-de-aula e
inviabilizando a sua fruio esttica. Ou seja, um Lobato pedaggico, na TV,
apesar de todas as restries morais e literrias a que o confinam -e talvez por elas
mesmas-, consegue seduzir, tendo em vista a dinmica prpria da imagem e suas
implcitas interrelaes textuais. Outra coisa  o mesmo Lobato, s que agora em
livro e recebendo um tratamento pedaggico formalista; isto, sendo cobrado como
tarefa escolar, descolada do mundo ficcional do leitor e geralmente sem qualquer
esforo intertextual que poderia ser, inclusive, com o prprio programa de TV.  a
reverso perversa e ingrata do desinteresse, contra quem se preocupou
obsessivamente com o gosto de seus leitores .
Portanto, no  preciso destruir a TV, mas "desdidatizar" Lobato, de modo
que possa realimentar-se da vida. Isso abre novas possibilidades ao ato de ler, ainda
muito circunscrito  voz unvoca do texto e, pior, sem sondar as suas possibilidades
extratextuais.
Desembaraar Lobato das amarras da indulgncia pedfila e do proselitismo
pedaggico significa mais do que uma reviso crtica do precursor da nossa
Literatura Infantil, numa justa compreenso de seu "status" de educador perptuo
da criana brasileira. Livre deste reducionismo -tarefa obrigatria de todos os seus
leitores sinceros-, Lobato deixar mais evidente a sua condio de "Everest" ,
como apelidava os grandes escritores, pois a impresso que se tem  que andam
mexendo com a chave do seu tamanho, imitando a Emlia. S que a nossa boneca
travessa apequenou os homens para acabar com uma guerra mundial, enquanto os
seus imitadores querem acabar com a fantasia, melando o p do pirlimpimpim.


5. Morar nos livros.
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Reduto da fantasia, mas, ao mesmo tempo, uma simples mercadoria de
consumo e prazer, o livro tem grande projeo simblica no mundo de Monteiro
Lobato. Submetido a srias indagaes pelo editor desejoso de construir um pas
com "homens e livros", escrito com a expectativa quase infantil de "ver no que
d", ou distribudo como verdadeiro libelo no exerccio orgulhoso de sua
cidadania, o livro marca a vida empresarial e literria de Lobato.
No mundo das crianas no seria diferente, representando o suporte material
do prazer e o instrumento democrtico de acesso  cultura e  informao. Dona
Benta, sempre cercada de livros, passa o tempo todo lendo, e os seus concorridos
seres alternam a leitura coletiva e os comentrios da turminha do Stio,
atualizando e dando sentido aos textos; Emlia no deixa por menos e quer registrar
as suas memrias num livro que o paciente e submisso Visconde de Sabugosa
ajuda a escrever; dos livros saem as clebres personagens infantis que invadem o
Stio para visitar os seus moradores e com eles trocarem idias; e, quando Emlia
transtornou o mundo n'A Chave do Tamanho, uma de suas maiores preocupaes
foi com o futuro da cultura humana, quase toda ela depositada em livros que de
nada mais serviriam, pois ficaria impossvel o seu manuseio por criaturinhas to
pequenas: "Mas a cincia vai levar a breca, porque a cincia est nos livros e os
livros j no podem ser usados."( 14), observou Emlia, logo tranqilizada pela
inveno recente do livro de ptalas de rosa, j em pleno uso na progressista "Pail
City", a cidadezinha construda sob um balde emborcado no jardim de uma casa.
Era a resistncia do livro sob condies de vida as mais adversas, mas que no
poderia dispensar o registro da experincia humana acumulada.
A par desta adeso irrestrita ao livro, Lobato valorizava-lhe a "legibilidade",
de modo a favorecer a recepo prazerosa do texto. Tipo de papel, encadernao,
ilustraes, alm da bvia preocupao com o estilo, nada passou despercebido a
Lobato que chegou a acompanhar de perto o trabalho de seus ilustradores para que
no trassem o texto ou deformassem os personagens, como s vezes reclamavam
as crianas.
A princpio um tanto reticente quanto s possibilidades "modernizadoras"
do livro que deveria ser "para ler, no para ver, como esses de papel grosso e mais
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desenhos do que texto"( 15), como observou em 1934 ao amigo Rangel, logo
cedeu a favor das "novidades". Talvez instado por Ansio Teixeira (que sempre o
convenceu da necessidade de "novas metodologias") e, com certeza, pelo cinema
americano ("... uma escola. Jeca Tatu aprender nela a perdoar com generosidade o
erro dos fracos e a punir com dureza o crime dos fortes."( 16), Lobato adere
francamente aos mais variados usos da linguagem, inclusive aos que pudessem
auxili-lo na recodificao de seus prprios textos. O objetivo, como sempre, era o
de atender o gosto daquele "ser especialssimo, do qual o homem vai sair, mas que
ainda tem muito pouco de homem. Em conseqncia, o seu alimento mental h de
ser, nunca uma reduo de dose, mas algo especial. E da qualidade desse alimento,
elas tm que ser os julgadores. Se refugam, no presta; se mostram avidez, 
timo."( 17)
Em nome dessa avidez, Lobato fora os seus limites e chega a alterar as
suas convices e at os seus padres estticos;  o que se percebe com a
publicao, na Argentina, do Narizinho colorido e em formato de lbum,
abandonando as antigas vinhetas e ilustraes em branco e preto. Tambm leva
muito a srio a opereta infantil Narizinho, montada pelo msico baiano Aldroaldo
Ribeiro da Costa, a partir de um libreto escrito por ele mesmo. Em correspondncia
datada de janeiro de 1948, assim se dirige ao
Amigo Aldroaldo:
Escrevi um ensaio do libreto, dando maior dramaticidade
ao enredo, mas  ensaio ainda. Estou tomando a
srio a coisa, porque estou vendo curiosas possibilidades.
Aqui em S. Paulo, temos agora a Olenewa, diretora de um
curso coreogrfico que tem produzido grandes coisas, que
est interessada; e no Rio temos o grupo de Veltechek. Esto
abrindo os olhos, graas a voc, o pioneiro. Temos pois
de tomar a coisa muito a srio e fazer um Narizinho que
possa ser levada em toda parte. Uma coisa ficou provada: o vivo
interesse das crianas pela representao, o prazer que
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elas sentem ao ver aquela historinha teatralizada. Isso nos
impe um dever: aperfeio-la. (18)
Constitui-se, pois, o interesse da criana na medida lobatiana para a
construo de sua literatura infantil. E no se veja nisso qualquer concesso 
indulgncia amvel e pedfila, j que no mbito de sua interveno sempre estar
presente aquele desejo primordial de "meter idias no bestunto da crianada". E se
valerem aqui as observaes de Snyders,  possvel "lobatiz-las", pois o seu
propsito inculcador estava entretecido com "as verdades a conhecer, uma luta a
travar, a organizar, ou antes, uma luta a travar com base nessas mesmas verdades."
(19)
Balizado por essas verdades que interessam, porque resultantes da interao
com seus leitores, Lobato vai sinalizando para o quanto as suas concepes sobre
Literatura, ou mesmo sobre Esttica, estavam se transformando. Embora no
tivesse muito apreo pela originalidade, "coisa l dos moos da Semana", era nessa
direo que o conduzia a saga do Picapau Amarelo, de improvveis e mgicas
fronteiras, mas de realssimo poder de influir sobre o bestunto das crianas. Como
j se observou atrs, distinguir-se na difcil arte de interessar as crianas, a partir de
critrios estabelecidos por elas mesmas, no deixava de ser original; era um
procedimento criativo que subvertia aquela dominante literatura para adultos em
miniatura.
Ao se referir  modernidade de Lobato, Marisa Lajolo observa que
(...) todos os ndices de modernidade de Lobato (modernizao
do modo de produo da literatura, a concepo
moderna de livro e de leitura, projeto de criao
de uma literatura infantil) poderiam ser insuficientes
se outros aspectos, agora internos  sua obra, no apontassem
tambm para um projeto e uma prtica de
modernidade e mesmo de vanguarda presidindo  sua
produo literria. (20)
Agindo como um contrabandista da educao, Lobato burlou a vigilncia
dos mestres-escolas graas a este senso de modernidade sublinhado por Lajolo, e
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passou s crianas -e mesmo aos adultos-a "mercadoria" de que mais precisavam:
livros em que era possvel "morar" e a descobrir o prazer de aprender, sem
conceder  indulgncia amvel e irresponsvel ou  intolerncia adultocntrica.


5. Persuaso e cumplicidade.
Conseguiu ento Lobato, com sua educao de contrabando, a proeza de
influir sobre adultos e, principalmente, crianas, com absoluta iseno poltica ou
ideolgica? Fosse assim, e teramos a maior sengraceza desse mundo, diria Emlia.
J se viu ao sem inteno? A neutralidade do discurso lobatiano deixaria a sua
literatura to sem sentido como a vida de Hrcules antes de conhecer o sentido da
educao: "um terreno baldio (...) onde o mato cresceu sem disciplina."( 21)
Era propsito do autor legitimar um projeto de reconstruo social, pela
literatura; no fundo, tambm ele -e por que no?-tinha aquela ntima convico do
acerto das suas representaes de mundo que, nas palavras amigas de Lima
Barreto,
(...) era um grande sonho ntimo de obter a harmonia
entre todos os homens e destes com a terra, nossa me
comum.( 22)
Ao que, observa Lobato em tom lamurioso em razo das crticas ferinas que vinha
recebendo pela defesa intransigente de suas convices:
Tu compreendes, e me compreendeste: um sujeitinho
que trabalha na sua toca, descreve o que viu e sentiu,
e no fundo chora das coisas serem como so e no como
deveriam ser.( 23)
Como entender, ento, a convivncia, na obra lobatiana, desse engajamento
poltico e mais amplamente intelectual com aquele repdio democrtico s idias
impostas? Afinal, chorar pela impossibilidade de construir um mundo "como
deveria ser", no o isenta de uma incontida intolerncia com uma realidade, cuja
ordem lhe contraria "o grande sonho ntimo". A contribuio de Lobato 
cultura e  educao brasileiras, porm, no se caracteriza pelo contrabando de um
tipo de conhecimento a ser imposto atravs do subterfgio do prazer; tambm o
222#
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mtodo  um dado a ser considerado, pois a caminhada lobatiana implica
necessariamente o livre-arbtrio da criana que, para "morar nos livros", no
precisa abrir mo de sua individualidade e senso crtico. Estabelece-se, como se
ver, uma interao dinmica -pode-se dizer, mesmo, maiutica-entre o narrador e
o leitor, num propsito franco de convencimento pelo dilogo.
Para quem j leu Monteiro Lobato com a obrigao quase sempre
gratificante de "trabalh-lo" em sala-de-aula, no deve ter passado despercebido
esse carter persuasivo de sua narrativa. Ao contar os seus "causos", o autor exerce
uma sedutora persuaso que  prpria dos artistas da palavra, despertando em seus
leitores o que, afinal,  o objetivo ltimo da Literatura: a emoo esttica. Atento a
esse propsito de estesia, ele vai afirmando a importncia de livros com os quais o
leitor, feito cmplice, possa se identificar e, de tal modo, que os possa incorporar
como se fossem experincias vividas:
Quero conto que conte coisas; conto donde eu saia
podendo contar a um amigo o que acontece, como
o fulano morreu, se a menina casou, se o mau foi
enforcado ou no...( 24)
Edgard Cavalheiro, o consagrado bigrafo de Monteiro Lobato, fala-nos das
centenas de cartas enviadas ao escritor por seus leitores. A nfase  o estado de
encantamento a que foram levados pelas aventuras dos heris do Stio, no faltando
pedidos de pontas nas histrias para contracenarem com Emlia e seus amigos.
Atendidas essas solicitaes, no  raro ver-se o trnsito rpido de personagens
inusitados nas histrias, chegando o autor a um to extremado zelo pelos seus fs
que, na invaso do Stio pelas crianas de todo o mundo, interessadas em conviver
com os netos de Dona Benta, aparecem dzias desses "deslumbradinhos".
Contudo, o dado de persusso aqui referido no se esgota no encantamento
mgico do leitor; no  pura comoo: em Lobato, o suporte da fantasia  o sentido
da vida, flagrado nas aes quase sempre contraditrias de seus atores, entre si ou
com o mundo. Com essas "amarras" realistas, o inslito de sua fantasia no se
compromete com o irracionalismo e  desta positiva ambigidade entre o real e o
maravilhoso que se nutre a tensa narrativa lobatiana, estabelecendo contradies e
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pondo em suspenso as verdades convencionais. Na edificao de suas idias, o
autor no esconde os andaimes, evidenciando, atravs de dilogos que
comprometem o leitor, as "escoras" de seu raciocnio.
Dos artigos escritos por Edgard Cavalheiro para "O Estado de S. Paulo",
consta o extrato da carta de uma leitora, j adulta, entusiasmada com os
"benefcios" da leitura de Lobato:
(...) com os seus livros na cabea, meu Lobato, quase decorados,
eu fiz os primeiros alicerces literrios. Deles me vieram
a imaginao enorme que me pe hoje a olhar para o
cho, sem ver, a cismar em coisas e gatos e histrias que eu
invento. Aquela bondade de Dona Benta, no digo que a possua,
mas d-me vontade de ser tambm assim tolerante e
boa. O Pedrinho, o Visconde, Narizinho, em todos eles
(at no Rabic) eu vejo personificaes e pedaos do meu
eu.  isso tudo, meu amigo, que me faz escrever para voc.
 esse sentimento de gratido e amizade e, principalmente,
de admirao.( 25)
Compreensvel, pois, que a narrativa de Lobato, sendo assim convincente,
provoque a interiorizao de valores, a formao de hbitos e condutas como
resultante daquela antiga idia confidenciada ao amigo Rangel, "de vestir 
nacional as velhas fbulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas
moralidades. Coisas para crianas." (26)
Se tal projeto fosse realizado  risca, teramos a um La Fontaine  nacional,
produzindo uma literatura desprovida de estatuto artstico e esbanjando
inconvenientes virtudes pedaggicas, comprometidas com o patriotismo e as
moralidades. Mas para o crtico Alceu de Amoroso Lima, Lobato evitou os dois
defeitos que maculavam a literatura para a infncia produzida entre ns na dcada
de 20, o pedagogismo e o mercantilismo:
(...) dois defeitos antagnicos: ou  feita, em geral, por
professores e vem impregnada de pedagogismo (...) ou
 feita por amadores, ou pior, por profissionais da in-
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fncia de mascate (sic) e caem sempre no grosseiro, no
mau gosto, na vulgaridade barata. (...) Eu no nego que
seja possvel uma literatura infantil de excelente qualidade
feita por adultos. E que interesse, que apaixone as
crianas, quando possuindo as qualidades necessrias
para isso. Aqui mesmo, entre ns, j se tem feito alguma
coisa nesse sentido. As histrias de Narizinho Arrebitado
do Sr. Monteiro Lobato so uma boa demonstrao desse
conceito. (27)
Apesar de isent-lo do pedagogismo (j que o amadorismo mercantilista
seria impensvel em Lobato), no se pode dizer que a inteno tenha sido
totalmente abandonada; e se evitou os seus excessos "instrutivistas", manteve-o
latente. Temos, ento, um La Fontaine  nacional? J foi dito que no, mas o fato 
que, embora Lobato tenha construdo uma fabulao muito mais artstica do que
pedaggica, e portanto indiscutivelmente literria, o seu intuito foi sempre o de
ensinar as crianas, na constante vontade de modificar o mundo, ou de nos irmanar
com a "nossa me comum", o Brasil. Da, o inegvel nacionalismo e a
intransigente defesa de princpios ticos inspirados, segundo alguns crticos, na
"filosofia progressista-burguesa-elitista".( 28)
A diferena est em que tal militncia no  a de um jacobino. Antes do
moralista que, reitere-se, permanecer em Lobato, aparece o polemista crtico,
conversando com o leitor feito cmplice de sua argumentao. Antnio Hohfeldt
lembra, a propsito, a estrutura essencialmente dialgica da narrativa lobatiana, isto
, o antigo processo socrtico da maiutica". Acrescentando, ainda, que "no se
trata apenas de o escritor apresentar suas idias ficcionalmente atravs da tcnica
do dilogo, mas sim de instrumentalizar o dilogo como aparncia de democracia
que existe na exposio de suas idias."( 29)
Indo mais longe, Zinda Vasconcellos observa que os juzos provisrios
emitidos por algumas personagens -em especial Dona Benta-, constituem um
recurso muito comum nas obras do nosso autor, visando ao engajamento pessoal do
leitor:
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Esse engajamento  ainda intensificado pelo carter aberto,
no autoritrio, da transmisso dos ensinamentos: como o
narrador no fecha as questes levantadas, abre-se todo um
espao para a contribuio do leitor.( 30)
N'O Saci, h disso um bom exemplo. Convidado pelo "cuizarruim", no
dizer da tia Nastcia, para conhecer os monstros da floresta, Pedrinho, enquanto
aguarda a meia-noite, conversa com o seu cicerone que lhe pergunta sobre o medo:
-Sabe o que  o medo?
-Sei sim. (...) O medo vem da incerteza.
-Isso mesmo, disse o saci. A me do medo  a incerteza e o pai
do medo  o escuro. Enquanto houver escuro no mundo,
haver
medo. E enquanto houver medo haver monstros como os
que vo c vai ver.
-Mas se a gente v esses monstros, ento eles existem.
-Perfeitamente. Existem para quem os v e no existem para
quem no os v. Por isso digo que os monstros existem e no existem.
-No entendo -declarou Pedrinho. Se existem, existem. Se no
e xistem, no existem. Uma coisa no pode ao mesmo tempo existir
e no existir.
-Bobinho! -declarou o saci. Uma coisa existe quando a gente
acre dita nela; e como uns acreditam, os monstros existem e no
existem.( 31)
Descontada a sardnica auto-suficincia do saci -afinal ele  a encarnao
nativa dos duendes europeus-esse debate metafsico termina semeando o vir-a-ser
no serto do Picapau Amarelo. E, convenhamos, nem  tamanha esta auto-suficincia,
pois Pedrinho, pela dvida "categrica", d-lhe contornos de juzo
provisrio. E tanto o discurso lgico e convencional do sujeito do consciente, que
 Pedrinho, quanto o discurso algico e inconvencional do sujeito do inconsciente,
que  o saci, submetem-se a recprocas consideraes, sem contar com a
subentendida crtica do leitor presumvel na argumentao dos "debatedores". A
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um leitor atento,  irrecusvel a participao de coxia, dada a provisoriedade das
"teses" defendidas, sendo que essa inconclusibilidade incita  cumplicidade
narrativa e acena ao leitor com a possibilidade de sua interveno no desfecho.
Mesmo porque, o saci, atuando como um mito desagregador da lgica formal, no
fecha a questo, como fariam as fadas que, segundo a anlise de Bettelheim (32),
caracterizam o poder absoluto representado pelos pais e adultos virtuosos em geral.
A irriquieta atitude anti-convencional do saci (e, convenhamos,  a mesma
de Emlia), acaba dando o tom atrevido de que est impregnada toda a obra de
Lobato, inclusive a literatura para adultos; o atrevimento nas idias ousadas e
transformadoras, prprias dos visionrios (ser esse o mistrio da cumplicidade do
leitor?) e encontrveis at na "mais av das avs", a virtuosa e imprevisvel Dona
Benta Encerrabodes, mestra em relativizar as verdades universais:
-As pessoas cultas aprendem com professores e, como
aprendem, repetem certo as palavras. Mas os incultos
aprendem o pouco que sabem com outros incultos, e s
aprendem mais ou menos, de modo que no s repetem
os erros aprendidos como perpretam erros novos, que
por sua vez passam a ser repetidos adiante. Por fim, h
tanta gente a cometer o mesmo erro que o erro vira uso,
e portanto deixa de ser erro. O que ns hoje chamamos
certo, j foi erro em outros tempos. Assim  a vida, caros
meninos.( 33)
Atento a tais "desatinos", o padre Sales Brasil, conhecido por suas crticas
ao "insidioso Lobato", secunda as palavras de Dona Benta :
E assim  Lobato, meus caros adultos, que da relatividade
dos erros gramaticais, vai empurrando as crianas para a
relatividade (...) dos erros da vida.( 34)


J na palestra que precede a publicao do seu livro-denncia, o Padre
Brasil registrava o "profundo conhecimento de Lobato acerca da psicologia
infantil". E pelas pginas do dirio baiano "A Tarde", de 08/11/56, soube-se que "o
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conferencista, pesquisador erudito, durante duas horas dominou o auditrio,
fazendo verdadeiro diagnstico da intoxicao da infncia pelos livros que lhes
destinou o grande escritor Monteiro Lobato; grande, mas mpio, faccioso e
retintamente comunista". E para no ficar atrs no reconhecimento da percucincia
do padre estudioso, a revista "nica", nov. e dez./ 56, tambm da Bahia, vai
registrar que "Coube a esse erudito homem de letras e brilhante escritor a ousadia,
no momento em que se alastra por esse Brasil afora a disseminao de uma
literatura de duvidosa finalidade, principalmente para a infncia, investir, com
dados os mais preciosos, anlise a mais objetiva e bem fundamentada, contra a obra
perigosa de Monteiro Lobato... Precisvamos, no combate a essa malvola
literatura, outros tantos brasileiros como o Padre Sales Brasil, para mostrar aos pais
de famlia em que iluso se encontram, incentivando seus filhinhos a adotar livros
prejudiciais  formao do carter desses inocentes que tero de ser, amanh, os
homens do Brasil."
Consoante os clamores do Padre Brasil, pode-se confirmar o carter
persuasrio da narrativa de Lobato, fundada que est no reconhecimento da razo
e da sensibilidade dos que a recebem interativamente. Mais ainda se verifica, e
confirma, a partir das investidas eruditas do prestimoso Padre Brasil: conhecedor,
como de fato foi, da psicologia infantil, e da criana brasileira, particularmente,
Lobato no descambou para o relativismo indulgente dos mascates da infncia,
nem para o didatismo moral-nacionalista ou "internacionalista", apesar dos riscos;
e por isso, ainda  convincente e sedutor. Conciliam-se em seus livros,
satisfatoriamente, o desejo de fruio esttica, inerente a todo leitor de uma obra
literria (em especial s crianas), com a permanente inteno de "meter-lhes idias
no bestunto", a mais declarada de suas incontveis profisses de f.


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NOTAS

(1) Monteiro Lobato. A Chave do Tamanho. 15 ed. S. Paulo, Brasiliense, 1977,
p. 104.

(2)-------------------Histria do Mundo para as Crianas. 23a. ed. S. Paulo,
Brasiliense,
1978, p. 66.

(3)-------------------"A Criana  a Humanidade de Amanh". Conferncias,
Artigos e Crnicas. 4 ed. S. Paulo, Brasiliense, 1972, p. 100.

(4) Id. ibid.

(5) Fernando de Azevedo. A Cultura Brasileira. 2 ed. S. Paulo, Companhia
Editora Nacional, 1944, p. 11.

(6) Georges Snyders. Para onde vo as Pedagogias no Diretivas? Lisboa, Moraes,
1974, p. 44-45.

(7) Monteiro Lobato. A Barca de Gleyre. S. Paulo, Brasiliense, 1951, 2 Tomo, p.
104.

(8) Id. ibid. p. 228.

(9) Galeo Coutinho. "O Humor e a Stira em Monteiro Lobato." Revista
Fundamentos, 1948, (4/ 5): 301.

(10) Monteiro Lobato. "O Museu de Emlia". Histrias Diversas. 4 ed. S. Paulo,
Brasiliense, 1973, p. 93 a 99.

(11) Dcio Valente. Vida e Obra de Euclides da Cunha e de Monteiro Lobato.
S. Paulo, Ed. do Autor, 1992, p. 133.

(12) Monteiro Lobato. "A Criana  a Humanidade de Amanh". Op. cit. p. 100.

(13) Srgio Capareli. "Lobato na TV". Atualidade de Monteiro Lobato. Uma
Reviso Crtica. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1985, p. 121.

(14) Monteiro Lobato. A Chave do Tamanho. Op. cit. p. 125.

(15) -------------------A Barca de Gleyre. Op. cit. p. 328-329.

(16) -------------------A Onda Verde. S. Paulo, Brasiliense, 1951, p. 22-23.

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(17) -------------------"A Criana  a Humanidade de Amanh". Op. cit. p. 101.

(18) -------------------Cartas Escolhidas. 2 ed. S. Paulo, Brasiliense, 1961, p. 257.

(19) Georges Snyders. Op. cit. p. 45.

(20) Marisa Lajolo. "A Modernidade em Monteiro Lobato". Atualidade de
Monteiro Lobato. Op. cit. p. 47.

(21) Monteiro Lobato. Os Doze Trabalhos de Hrcules. 4 ed. S. Paulo, Brasiliense,
1965, 2 Tomo, p. 289.

(22) Lima Barreto. Impresses de Leitura. S. Paulo, Brasiliense, 1956, p. 111.

(23) --------------Correspondncia Ativa e Passiva. S. Paulo, Brasiliense, 1956, 2
Tomo, p. 55-56.

(24) Monteiro Lobato. "O Resto de Ona". Cidades Mortas. S. Paulo, Brasiliense,
1951, p. 66.

(25) Edgard Cavalheiro. Monteiro Lobato: Vida e Obra. S. Paulo, Companhia
Editora Nacional, 1955, 2 vol. p. 609.

(26) Monteiro Lobato. A Barca de Gleyre. Op. cit. p. 104.

(27) Alceu Amoroso Lima. Primeiros Estudos. Rio de Janeiro, Agir, 1948, p. 42.

(28) Antonio Hohlfeldt. "Comparando Lobato com Lobato". Atualidade de
Monteiro Lobato. Op. cit. p. 107.

(29) Id. ibid.

(30) Zinda M. Carvalho Vasconcellos. O Universo Ideolgico da Obra Infantil de
Monteiro Lobato. S. Paulo, Trao Editora, 1982, p. 134.

(31) Monteiro Lobato. O Saci. S. Paulo, Brasiliense, 1977, p. 43.

(32) Bruno Bettelheim. A Psicanlise dos Contos de Fadas. Rio de Janeiro. Paz e
Terra, 1978, p. 224.

(33) Monteiro Lobato. Emlia no Pas da Gramtica. S. Paulo, Brasiliense, 1977,
p. 88.

(34) Padre Sales Brasil. A Literatura Infantil de Monteiro Lobato ou o Comunismo
para Crianas. Salvador, Livraria Progresso Editora, 1957, p. 129.

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